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“131 Mantendo a sanidade mental em épocas de alta volatilidade na Bolsa de Valores”

Na segunda semana de março (que foi semana passada) muitos investidores que têm ativos de renda variável experimentaram oscilações e talvez emoções bem intensas na bolsa de valores: cai 12%, sobe 7%, cai 10%… Cai mais 10%, 15%! Sobe outros 14%, fecha com alta de 7%; devolve tudo e um pouco mais no pregão seguinte… e assim tem sido, principalmente com a declaração pela OMS de que o coronavirus é uma pandemia mundial, de fácil propagação e contágio, além de fatores intensificadores como a tensão em relação ao petróleo e as medidas governamentais na tentativa de contenção do alastramento do vírus, como cancelamento de eventos públicos e suspensão de voos… Isso tudo combinado tem provocado muita volatilidade em pouquíssimo espaço de tempo.

Muitos ouvintes do podcast, principalmente aqueles que são marinheiros de primeira viagem na Bolsa de Valores, estão apreensivos sobre o dinheiro já alocado e “preso” em ações, e por isso o episódio de hoje se destina a dar algumas dicas simples, mas úteis, para reforçar a proteção patrimonial em tempos de crise, histeria, pânico, e, como gostam de dizer as manchetes sensacionalistas de alguns veículos de comunicação, derramamento de “banho de sangue” dos mercados financeiros.

Mas como que mantemos a sanidade mental e o coração tranquilo em relação aos nossos investimentos? É sobre isso que vamos tratar também nesse podcast.

 

1. Tenha sempre uma reserva de liquidez, por mais que a renda fixa não esteja rendendo tanto.

Principalmente com a queda consecutiva da Taxa Selic, o brasileiro médio acostumado com renda fixa pagando próximo a 1% a.m. foi ficando cada vez mais insatisfeito com o dinheiro rendendo cada vez menos. Junto com isso, muita gente viu o vizinho, o colega de trabalho ou algum amigo ganhando rios de dinheiro enquanto a bolsa subiu devagar e sempre rumo aos 118-119 mil pontos. A conta é fácil: qualquer um ficaria tentado a ganhar mais, já que onde o seu capital está não tem rendido nada. E para onde vamos? Para a renda variável, para a bolsa de valores! Aí, estuda um pouco aqui, estuda um pouco ali, lê um ou outro relatório, vê que a bolsa tem a “promessa” de chegar ao final de 2020 pelo menos aos 125 mil pontos e enxerga a oportunidade de rentabilizar melhor o capital… mas… sem qualquer estudo prévio da renda variável ou das ações, sem qualquer definição estratégica da porcentagem da alocação, a pessoa resolve entrar na bolsa “na cara e na coragem”: investe altas quantias de uma só vez, sem estudo, sem muito critério, comprando aquilo que considera que está barato “porque a cotação parece estar baixa” ou porque Fulano, Sicrano e Beltrano disseram que essa ou aquela ação é o investimento do momento: motivação por ganância em dose bem exagerada, quase overdose.

Daí brota um vírus extremamente contagioso e de fácil propagação do outro lado do mundo, algo que ninguém imaginava ou esperava e, diante de um monte de notícias, fatos, mensagens fakes ou reais nas redes sociais, o desespero toma conta. A bolsa começa a despencar e de forma muito rápida. Quem é dominado pelas emoções na entrada acaba sendo dominado pelas emoções na saída, e não deu outra: infelizmente, a maioria dos investidores iniciantes vendeu a maior parte de suas ações durante a semana passada. Por quê? Primeiro, para estancar a sangria, os prejuízos potenciais que estavam experimentando, vendo os extratos negativos ou a tela do homebroker tudo vermelho. Segundo, para voltar a alocação aos níveis “normais”, evitando super exposição em Bolsa de Valores: mas evitando a exposição em renda variável não da melhor maneira, que é vendendo na alta, mas sim da pior maneira possível, que é vendendo no fundo do poço – se é que já chegamos nele.

Outros tantos investidores gastaram todos os cartuchos na primeira queda forte do Ibovespa, ocorrida logo após o Carnaval, quando o Índice caiu aos exatos 100 mil pontos, e ficaram com menos dinheiro para aproveitar as quedas da semana passada, que, até agora, foram as mais expressivas, com o Índice chegando a ficar na casa dos 68 mil pontos e desabando mais de 40% desde o seu topo. É fato que não tem como saber do futuro e saber se ia cair mais ou se vai cair mais – ou não –, mas o ponto é que esse tipo de evento raro acontece.

A primeira lição que fica, portanto, é essa: por mais que a renda fixa esteja ruim, por mais que o rendimento real, os juros reais estejam baixos (e possam até ficar negativos, a depender da inflação, das taxas de administração dos fundos e da rentabilidade de seus investimentos na renda fixa), tenha sempre uma boa reserva de liquidez, uma reserva na boa e velha renda fixa. O objetivo de ter um dinheiro reservado na renda fixa (poupança, fundo DI, CDB pós-fixado, etc.) não é propriamente produzir e gerar capital (ou seja, ter ganhos expressivos de rentabilidade), mas sim proporcionar proteção patrimonial, proporcionar segurança ao investidor.

Sempre que tenho oportunidade eu falo e repito: trabalhe, produza renda, faça uma boa gestão do seu dinheiro, tenha um padrão de vida mais simples, poupe pelo menos 10% do que recebe (idealmente 30% ou mais, se puder); se não tem investimento nenhum, forme PRIMEIRO sua reserva de emergência (a reserva de liquidez) e só depois de ter terminado essa tarefa pense em investimentos mais moderados ou arrojados. Não pule etapas. Senão, se todo seu dinheiro ou boa parte dele está aplicado em renda variável buscando maiores retornos, em caso de necessidade você pode vir a experimentar prejuízo real por ter que resgatar em momentos de baixa forte.

Ou seja: não dependa das ações para pagar as contas do dia a dia, para dar conforto psicológico sabendo que, mesmo com as ações derretendo 40%, 50% ou 70% em momentos de crise aguda. Tenha sim um dinheiro que você sabe que poderá contar com ele para os momentos de maior infortúnio ou necessidade em sua vida.

Phillip, eu posso colocar parte da minha reserva de emergência na bolsa já que está tudo tão barato?” A decisão é sua, o dinheiro é seu. Mas eu não te recomendaria fazer esse tipo de movimento: assim como não tem como prever quando e em que ponto as quedas vão parar, não tem como prever que você terá um imprevisto que demande um bom capital, mesmo que você tenha seguros ou outros tipos de proteção.

Em momento assim eu sempre lembro de um grande amigo que apesar de ser bastante conservador, nesse ponto ele tem razão: “prudência e canja de galinha não fazem mal à ninguém”. Seja prudente com você e com sua família. Não misture reserva de liquidez, de curto prazo, com reserva para longo prazo e/ou para formação patrimonial.

 

2. Desconecte-se do homebroker e das notícias por um dia inteiro: e vá fazer outra coisa.

Há muitos anos atrás, quando fui operador de bolsa, eu aprendi um ditado que é pura verdade: “um ano de bolsa, menos três de vida”. Na época eu operava com base na análise técnica, na leitura e interpretação de gráficos e indicadores, tentando prever os movimentos emocionais das massas de investidores; tive até algum sucesso com clientes e no curto prazo. Mas eu comecei a ficar vidrado: lembro de uma vez que fui fazer um treinamento em São Paulo e ficava até de madrugada acordado para ver como que as bolsas asiáticas abririam e como que isso impactaria a posição dos clientes que eu assessorava. Hoje eu ainda olho gráficos, pois gosto de enxergar aquilo que eu vejo através da análise técnica; mas para tomada de decisão eu olho os fundamentos, com estudo, com premissas conservadoras para tomar a decisão; e na hora de comprar ou de vender é ordem à mercado: eu não fico catando centavos na bolsa, simplesmente entro ou saio.

Para os marinheiros de primeira viagem – e também para quem já tem alguns anos de estrada na Bolsa – a tela do homebroker, com as cores verde ou vermelho piscando freneticamente, com as ordens de compra e venda no book de ofertas se alterando a cada segundo, é um convite e uma indução à elevação do estado emocional: ou de ganância – em época de alta – ou de pânico – em épocas de crise. E isso provoca algo mais delicado: estresse financeiro. É estressante você ficar sabendo quanto ganhou ou quanto perdeu em certo dia, mas é especialmente estressante você ficar vendo as cotações só descerem, descerem… e continuarem descendo.

Se você quiser intensificar as emoções extremas, basta, junto com tudo isso, manter conversas com seus amigos nas redes sociais e nas lives do YouTube, ficar olhando todo tipo de notícia, se embriagando com o vai-e-vem, para aí sim ficar completamente frenético, com a cabeça e o coração à mil e ainda mais exposto ao risco de agir por impulso: seja comprando mais na alta, seja vendendo tudo na baixa. Para piorar o estresse financeiro, você ainda pode se deparar com seu aplicativo da corretora não funcionar direito, exibindo as cotações com delay ou nem mesmo funcionando como deveria devido à sobrecarga de demanda. Qualquer um fica louco assim…

Por isso que eu friso bastante a questão do pensamento estratégico: se você tem sua reserva de emergência formada, começou a investir em renda variável, devagar, entendendo aos poucos, cada vez mais sobre o que está fazendo, sobre quais empresas está comprando, o porquê, se a bolsa despenca como tem despencado e sua visão está no longo prazo, isso tudo provoca um susto; mas com o foco de águia, no longo prazo, você mantém a calma e avaliar o que está acontecendo; se os ativos que você escolheu são de boa qualidade e você pode realizar movimentações, é momento de avaliar se aumenta a exposição ou se só assiste. Se você tem suas reservas de liquidez formadas, e sabe o que está fazendo ao investir em renda variável, esse pode ser um momento de pensar, analisar, e talvez decidir.

Se você ficar plugado o tempo todo com o que acontece na bolsa sua vida vai passar, você não vai fazer nada, vai gastar tempo e energia preciosos para suas atividades e relacionamentos e destruir sua saúde rapidamente. Por isso e por muito mais, procure manter um distanciamento saudável do homebroker. Isso com certeza te dará alívio mental e emocional, descansando sua mente e recompondo suas energias.

 

3. Não fique paralisado pelas notícias que saem. Concentre-se em sua vida.

O problema dos dias de hoje não se resume a ficar ligado no que sai na mídia “tradicional” (jornais, sites de referência, etc.). O problema dos dias atuais é tentar se desgrudar do que se publica nas redes sociais. Todo mundo praticamente deve ter um smartphone na mão que, convenhamos, ajuda muito em diversas tarefas. Mas ao mesmo tempo o que é bênção, pois temos acesso a informação, podemos comunicar com muitas pessoas distantes com pouquíssimo ou nenhum custo; se não for bem usado, pode se tornar maldição: especialmente as redes sociais têm o poder de disseminar notícias e informações na velocidade de um clique e, quanto mais dramática a informação (verdadeira ou falsa), mais alarmante, mais envolvida com morte, violência ou que provoque algum tipo de revolta social, mais temos a inclinação de… compartilhar! E compartilhando, a notícia (ou até fakenews) tem o potencial de viralizar mais que o coronavírus!

Alguns dias atrás, a busca pela novidade era saber se o presidente Jair Bolsonaro estava ou não com a doença, com atualizações praticamente minuto a minuto sobre o fato. Hoje, muitos estarão correndo atrás de saber se Fulano ou Sicrano pegou a doença. Me desculpe com a pergunta que pode soar grosseira, mas: em o quê isso afetará, concreta e diretamente, a sua vida?

O seu cérebro gasta energia, dentre outros tipos, gasto de energia com atenção. Aproveite a oportunidade para se concentrar nas suas atividades e não em coisas que estão fora do seu controle – e isso inclui desligar e ficar bem longe do homebroker. Quanto mais você se deixar levar por tudo isso, mais tempo e mais energia vão ser consumidos com coisas que, no final das contas, terão pouco impacto sobre a sua vida.

O seu tempo são como créditos renovados a cada dia: você tem 86.400 segundos para gastar naquilo que poderá reverter em maior proveito, como o seu desenvolvimento pessoal e na melhoria de seus relacionamentos pessoais. É claro que você deve ficar ligado em suas finanças, consciente do que está acontecendo; mas não precisa ficar tão embriagado de informação (principalmente negativas em tempos de pandemia) ao ponto de ficar mais surtado do que determinadas manchetes de jornal.

Não estou dizendo que o coronavirus é um virusinho qualquer. Não mesmo. Estamos diante de algo inédito, coisas quase que de filme, lidando com um vírus capaz de ceifar milhões de vidas em um curto espaço de tempo. Mas temos que tomar atitudes devidamente informadas, e ponderadas pelo bom senso, prudência e equilíbrio – da sociedade e da nossa sanidade mental, emocional, física e financeira.

No campo das finanças, mais especificamente dos investimentos em ações, evite tomar a decisão de liquidar sua posição em ações. E nesse momento de pânico, aproveite a oportunidade para realizar compras fragmentadas, aos poucos, de ativos que em sua visão estejam interessantes, mas de modo racional e prudente, pois não sabemos se amanhã haverá outra crise que torne tais ativos ainda mais baratos. Recomendo dar uma olhada no e-book que eu produzi que está em meu site: Investimento Gradual – construindo seu patrimônio em ações mês a mês. Você consegue o link direto na transcrição desse episódio, no blog do Dicas Curtas.

Quanto às ações compradas antes de março, e que ainda estejam em sua carteira, a melhor recomendação é: dê tempo ao tempo, espere a poeira baixar, e a vida na sociedade retomar o seu curso normal, pois as probabilidades são mais a favor da retomada do crescimento do que qualquer outra coisa. Não tinha e nunca vai ter como prever esse tipo de movimento. Contudo, já houveram crises financeiras piores que a atual, como a de 2008, e o mundo sobreviveu e retomou o crescimento.

Por último e não menos importante, na vida pessoal, além de tomar as medidas preventivas para a sua saúde, não se deixe contaminar pela histeria psicológica tanto de algumas pessoas quanto de veículos de comunicação, e aproveite bem o tempo que estiver ao seu dispor, evitando gastar seu precioso tempo consumindo lixo informativo que nada agregará à sua vida. Se for o caso, silencie os grupos de WhatsApp ou Telegram, ou os veja em bloco em horários pré-determinados do dia – e faça a mesma coisa com as outras redes sociais. Particularmente, já tem um tempão que meu celular só vibra quando recebe ligação; e só tem notificação de aplicativo quando é realmente importante, como agenda. Todas as redes sociais não disparam notificações – e isso tem me mantido longe do vício de gastar tempo com notícias, status, stories, mensagens diversas e outras coisas mais que podem prejudicar o uso do meu tempo e consequentemente minar minha produtividade.

Essa crise vai passar e o que ficará dela são as lições pessoais que você guardará na memória sobre as decisões que tomou em relação à sua vida pessoal e em relação às decisões financeiras e de investimento que tomou nesse momento de bastante turbulência.

 

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Ficamos por aqui e até a próxima semana com mais uma dica para a sua vida financeira!

Aqui é Phillip Souza, o Investidor Inteligente!

Investidor Inteligente do Dicas Curtas

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