Como que a vida financeira e a vida afetiva se entrelaçam quando o assunto é finanças? Nesse podcast conversei com Marcia Tolotti, uma das maiores especialistas na área no Brasil para esmiuçar um pouco mais sobre esse assunto. Tenho certeza que você vai ter uma nova perspectiva quando se trata de dinheiro.

Esse podcast vai trazer uma grande especialista em finanças e emoções, apresentando vários aspectos sobre nossa vida financeira e emocional e a relação que temos com o dinheiro.

Sem muitas delongas, falarei com Márcia Tolotti.

Ouça agora este podcast!

Ouça “172 Desafio da Independência Financeira e Afetiva – entrevista com Márcia Tolotti” no Spreaker.

Phillip Souza: hoje nós vamos falar com Marcia Tolotti: ela é escritora, consultora psicofinanceira, psicanalista e palestrante de educação financeira. Já publicou 7 livros sobre autoconhecimento e mercado financeiro como o “Desafio da Independência Financeira e Afetiva” que já teve mais de 50 mil exemplares vendidos, e “As Armadilhas do Consumo”.

E nesse podcast vamos tratar sobre diversos cuidados com as finanças pessoais e sobre investimentos para pessoas físicas, além de trazer uma análise mais estrutural sobre a psicologia das finanças e do consumo saudável.

Seja muito bem vinda ao podcast do Investidor inteligente Márcia!

Márcia Tolotti: obrigada Phillip! Obrigada aos ouvintes! Muito legal estar podendo falar aqui para quem tem essa lógica de como ser um investidor inteligente! Muito bacana! Fico muito feliz de participar!

Phillip: Eu já conheço a Márcia há pelo menos 13 anos e é um privilégio trazê-la aqui no podcast do Investidor Inteligente como uma grande especialista na área de Finanças e Emoções. E pra gente aproveitar ao máximo possível o tempo da Márcia aqui com a gente, eu já quero fazer uma pergunta importante: Márcia, como que o dinheiro influencia na vida emocional das pessoas?

Márcia: que bacana né? Tantos anos também você já interagindo nesse assunto, né? E para gente entender um pouco melhor sobre essa relação entre as emoções e a questão financeira basta a gente olhar um pouco internamente. Quando nós temos dinheiro nós vamos ficar muito mais tranquilos, confiamos mais inclusive no futuro e a gente acaba tendo uma visão de mundo mais positiva. Quando temos alguma questão financeira um pouco mais atrapalhada ou com mais dificuldades, a própria insegurança, a angústia, a ansiedade e a própria confiança em relação ao futuro acabam ficando comprometidos.

Então não tem como fazer essa divisão entre vida emocional e vida financeira: isso é um pacote. Claro que muitas pessoas acabam entrando no modo automático quando têm alguma dificuldade maior que é como se o impacto não chegasse mais. Então vamos pensar em pessoas que estão endividados, inadimplentes: tem aquela categoria das pessoas que sofrem muito com isso e aquela categoria das pessoas que é como se tivesse entrado no automático e isso já não fizesse mais muito sentido – é como se houvesse o amortecimento psicológico em relação a um processo de endividamento.

Então pelo menos essas duas formas, essas duas grandes categorias: ou as pessoas sofrem e se angustiam ou as pessoas entram no piloto automático. E dentro desse sofrimento, muitas vezes, vai acabar aparecendo o que a gente chama de uma formação reativa. Então as pessoas vão, ao invés de não comprar, por exemplo, vão acabar comprando por um processo, por um fenômeno psicológico reativo. Então “eu não posso, mas aí mesmo é que eu quero porque tolerar a frustração e aguentar viver um pouco mais no regime de escassez, ainda que seja temporário, vai desencadear reações distintas” – mas uma delas é esse comportamento reativo. Vou para o para o comportamento contrário do que tecnicamente eu deveria ter. 

E quando a gente pensa também na questão do investidor então isso também tem um outro desdobramento: o aspecto emocional-psicológico, vai impactar diretamente. Existem alguns estudos mostrando que esse impacto é muito maior do que a gente imagina – chegando aí a 95% de interferência emocional diante da tomada de decisão financeira.

Porém, isso é um processo inconsciente: ou seja, é um processo que muitas vezes nós nem temos consciência dele e a gente só vai reproduzindo comportamentos automáticos. Por isso que é extremamente importante analisar o que eu sinto, o que eu penso quando eu estou diante de uma situação financeira – seja para ganhar, seja para gastar, seja para investir: a coisa anda mais ou menos por aí.

Phillip: muitas vezes as pessoas sofrem com aquilo que chamo de “demanda reprimida”: às vezes a pessoa se encontra naquela situação que é preciso organizar as finanças, que precisa organizar a casa e aí começa a enxugar tudo e aí, inclusive, corta o lazer… Fica um mês, dois meses, três meses até que o emocional grita e fala “para” e começa a descontar tudo para trás. É exatamente isso que você está falando.

E é aquela coisa né, Márcia? Apesar de ser o assunto ‘finanças’ que muitas pessoas carregam a ideia que tem a ver apenas com cálculo, tem a ver apenas com planejamento, tem a ver apenas com uma ideia cartesiana das coisas, a gente entende que dinheiro é muito afetivo. Então, a partir do momento que estamos usando o dinheiro para alguma coisa, seja para agora ou para o futuro, ele tem um impacto afetivo: estamos esperando uma troca emocional. Existe alguma coisa aí por trás, né? E esse desequilíbrio que você está comentando pode provocar uma série de desafios, uma série de psicopatologias e percebemos que são gerados uma série de problemas como depressão e ansiedade relacionado a finanças. O que você pode falar para gente sobre isso, Márcia?

Márcia: tem dois pontos bem importantes que é a questão dessa relação que a gente tem com as finanças e todo o impacto seja positivo ou negativo diante da questão da própria personalidade como a gente vai encarar, e isso e tem uma questão cultural que é quando você coloca essa troca emocional e essa demanda reprimida é importante a gente perceber o impacto que a cultura tem nisso.

Muitas vezes e é claro que isso muda um pouco a partir de março de 2020 quando nós entramos no momento surreal da humanidade que é esse repensar até de alguma forma a relação que nós temos com o consumo, mas isso também não é tão forte ainda. Então a própria sociedade cobra que nós tenhamos bens materiais, seja experiências, a própria cultura, a própria demanda de mercado exige isso.

E nós não damos muita atenção para isso: a gente acredita que tem que ter porque é o melhor. Mas de onde nasce essa ideia? De onde é construído esse mito, muitas vezes? Então temos mitos modernos que é interessante fazer uma reflexão um pouco mais aprofundada para passar a compreender que nem tudo aquilo que, de certa forma, eu acredito que eu preciso ter de fato, eu preciso ter.

Isso é muito mais uma construção de pensamento e uma reprodução de pensamento que através da psicologia das massas que a gente chama, ou seja, desse contágio cultural que a gente acaba tendo, então “todo mundo tem que ter carro, todo mundo tem que viajar, todo mundo tem que…”. Esse “todo mundo tem que…” Esse imperativo cultural aí é que a gente precisa parar e analisar.

A decorrência disso, o efeito colateral de todas essas demandas é justamente esse sentimento de impotência financeira e de possibilidade de construção que a gente acaba tendo. Nós nos sentimos impotentes por não atender uma demanda que a gente nem faz uma leitura muito crítica em relação a ela.

A depressão que tem sido considerada a doença do século; ela tá ligada a algo que é muito natural no ser humano. Nós temos uma falta constitucional de ser humano: a gente nasce como seres faltantes – sempre vai faltar alguma coisa. E isso é que faz com que a gente acorde para poder continuar a vida e buscar outras alternativas na vida. Então essa ideia de que a gente consegue ser completo e tem uma felicidade absoluta isso também é uma construção moderna de pensamento.

A humanidade nem sempre acreditou que precisa se satisfazer, que consegue ser feliz o tempo inteiro. Até porque do ponto de vista de estrutura de personalidade isso é impossível. A gente tem vários momentos felizes, vários momentos bons, vários momentos de uma sensação de completude, mas isso é efêmero, é extremamente passageiro.

O mercado, de certa forma, entendeu que os seres têm essa falta constituinte e aí você fica oferecendo objetos de consumo para que se supra essa falta, mas como isso é incessante – não para de se repetir essa sensação de falta – quando a gente entra nesse processo, a gente vai estar sempre comprando interruptamente.

Tem algumas pessoas que vão desenvolver uma compulsão por compra, então é uma das questões dos efeitos colaterais – e aí tu encontra campo frutífero para isso porque a gente sempre vai estar faltando algo e que não é o objetivo; é sempre de uma subjetividade do sujeito.

E tem esse outro efeito que a pessoa acredita que não tem capacidade para dar conta disso – e aí sim entra esse processo mais depressivo, essa falta de crença, a falta de fé em si, na sociedade, na própria vida. Essa tristeza profunda, essa melancolia… Então são sentimentos: a depressão, a ansiedade, a melancolia, a tristeza, a inveja, a impotência – vêm como efeito colateral de uma espécie de não cumprir essa ilusão de completude.

E o consumo entrou nesse enrosco todo. Então o que é importante: é a pessoa, primeiro, perceber que essa sensação de felicidade por adquirir algo, por ter algo, por estar num movimento de consumo, ela vai ser sempre de saída falha, ela vai funcionar por um tempo, mas imediatamente eu vou ter de novo essa sensação de falta e que a falta é uma mola propulsora para conquistar outras coisas. Então tenho que suportar, tolerar o “não ter” porque o ter absoluto é uma construção imaginária.

Então nesse sentido é que esses outros sentimentos mais complexos e ruins que a gente acaba tendo, eles vêm porque encontram solo fértil na questão do consumo: por mais que a pessoa tenha dinheiro, por mais que ela fosse comprar supostamente tudo o que ela quer, ainda assim a sensação de falta iria aparecer.

Eu lembro, Phillip, de uma história que a Cartier lançou uma coleção com cinco colares apenas em todo mundo. E uma pessoa, uma mulher, não conseguiu: ia comprar e teve que pedir para o marido autorização porque, afinal, custava oito milhões de euros a peça… Então ela ficou um pouco na dúvida, voltou no dia seguinte para comprar e aí não conseguiu comprar porque já haviam levado. E ela cai em um choro profundo. Esse é o relato que a gente tem da própria Cartier.

O que que isso significa? Significa que chega às vezes no estágio de vida que a pessoa para se sentir diferenciada no mundo, para se sentir dentro da sua própria integralidade de ser humano, ela precisa de objetos externos – e isso pode chegar no nível absurdo e de ter uma própria despersonalização e esse é o risco que a gente corre inclusive com as crianças: crianças que não tem coisas, não andam se sentindo sujeitos. Não é por nada também que a gente tem um aumento tão grande de suicídio na infância e na adolescência.

Então a gente tem que cuidar muito porque eu não consumir algo pode consumir confiança em si mesmo e a própria segurança diante da sua personalidade.

Phillip: pode consumir a própria vida, pelo que você está relatando, que é algo extremamente sério. Inclusive, em algumas situações, de algumas pessoas e alguns clientes que eu atendo, eu falo abertamente com os pais que, em determinados momentos, eles têm que frustrar as crianças deles. Não é frustração o tempo todo, obviamente. Mas assim: o “não” ele é saudável, porque você tá mostrando para criança que ela não pode ter tudo. Ainda mais quando ela não tem uma consciência financeira e também uma consciência emocional tão desenvolvida. Então assim, essa resposta, essa negativa, ela é importante porque se ela não recebeu o não dos pais, ela vai receber o não da vida. E o não da vida costuma ser muito mais duro do que é ensinado dentro de casa.

E outro ponto também é o seguinte, que até é uma questão relacionada ao consumo: as pessoas começam a buscar em coisas externas procurando preencher o que elas têm de falta internamente – gerando uma sensação e uma percepção de escassez. E sabemos que se é uma percepção nós podemos mudar as chavinhas e dali começamos a perceber que temos muito mais do que nós precisamos. Contudo, essa sensação de falta gera nos brasileiros, e não só nos brasileiros, mas no mundo todo, um direcionamento para as pessoas se endividarem: mais de 60% das pessoas se encontram endividadas em diferentes graus: algumas superendividados, outras pouco endividadas. E, diante disso, quais são os impactos das dívidas na saúde emocional e física das pessoas, Márcia?

Márcia: já faz tempo que eu venho trabalhando com esse conceito, Phillip, desde 2007 quando eu lancei “As Armadilhas do Consumo”, ali eu já trabalhei com a questão do endividamento financeiro sendo uma decorrência do endividamento emocional.

Isso não é uma regra geral, obviamente, e não é para todo mundo. Tem situações aonde a pessoa vai perder emprego, vai ter algum acidente, algum adoecimento, alguma morte ou alguma separação na família que acaba realmente rompendo com um planejamento financeiro mais equilibrado e acaba entrando numa questão de endividamento.

Mas isso não é regra geral. Nós temos, desses 60% aí que tu traz de pessoas endividadas, eu acredito que um percentual mais do que a metade acaba se endividando financeiramente por um endividamento emocional. O que quer dizer isso? A pessoa se sente insegura; para combater isso, ela vai comprar alguma coisa. A pessoa tá triste, ela vai comprar alguma coisa. Aliás a neurociência mostra que uma pessoa em um estado de felicidade não compra: as pessoas compram sempre em estado de tristeza, baixa estima, angústia – então sempre são momentos de “sentimentos negativos” em que a pessoa acaba sendo levada para compra.

Vamos dar um exemplo muito clássico: a pessoa vai para uma entrevista de emprego, tá insegura, não sabe se vai conseguir ou não, já tá angustiada porque tá um tempo sem trabalhar e aí ela acredita que não tem roupa adequada para ir para a entrevista. Então ela vai e compra alguma peça, alguma roupa, algo para compor a sua vestimenta para que aquele objeto empreste<, ela toma emprestado o que ela supõe ser um atributo daquele objeto, seja uma roupa, um calçado, um relógio… Enfim: então as pessoas acabam tomando emprestado atributos de objetos externos para combater esses sentimentos.

A gente encontra muita gente nesse nível de endividamento. E aí tem uma diferença, por exemplo, entre homens e mulheres na questão não do nível de endividamento, mas do tipo de compra: os homens e mulheres eles estão equiparados, ambos estão endividados no grau muito parecido. Agora, a mulher tem mais frequência de compra com objetos menores; o homem compra menos coisas maiores. Então o homem vai acabar se endividando até muitas vezes para combater essa falta emocional que ele sente. Como um carro, com um computador, com um equipamento eletrônico mais caro “porque o amigo tem, como é que o amigo tem eu não tenho; se o amigo conseguiu eu também posso”. Essa relação, esse endividamento emocional ele vai levar para o endividamento financeiro em muitos e muitos e muitos casos

Volto a frisar como é um processo inconsciente as pessoas não têm tanta facilidade de reconhecer isso. À medida que eu não reconheço um problema, eu não consigo resolver ele também. Fazendo aqui uma analogia, por exemplo, com pessoas que têm dificuldade com bebida, que bebe compulsivamente, que fumam compulsivamente, qual é a grande a grande fala da pessoa? “eu paro a hora que eu quiser” – só que ela não para por um ano, 10 anos, 30 anos… As pessoas não param. Então não é bem assim.

Com relação ao consumo ou a falta de planejamento de compras é a mesma coisa. Então as pessoas aí vão usar de desculpas, de gatinhos externos, para poder comprar sem planejar e isso tudo, Phillip tem uma coisa… O buraco é mais embaixo um pouquinho… Porque qual é o efeito disso? Ele também tem um processo de uma autossabotagem muito grande. Ou seja as pessoas têm uma dose de masoquismo, de autossabotagem aonde elas trabalham contra elas mesmas.

É óbvio que ninguém faz isso de caso pensado. Só que a gente tem que analisar o efeito disso. “tá… Eu tô aí a 1 ano, 2, 3, 4, 5, sempre com alguma dívida, sempre enrolado, não consigo guardar dinheiro, estou sempre angustiado porque não tenho uma vida financeira saudável…” Obrigatoriamente eu tenho que parar de achar que é só o mercado economia, isso ou aquilo, eu tenho que entender que é algo que eu faço e que muitas vezes eu faço algo que é ruim para mim sim. E esse é o tal do inconsciente, o pulo-do-gato de quem consegue perceber isso e se proteger muitas vezes disso é que consegue aí dar um encaminhamento para um planejamento financeiro mais saudável mais adequada

Essa chave pode virar, mas eu primeiro tenho que perceber isso. Por isso que a grande sacada é o autoconhecimento. Quanto mais eu entender como é que eu funciono diante de como eu lido com dinheiro muito mais facilmente eu vou conseguir me proteger, às vezes até de situações de impulso, de compulsões, e enfim até de um endividamento aí muitas vezes mais severo.

Phillip: inclusive, quem acompanha o Investidor Inteligente sabe que no episódio 167, eu tratei um pouco sobre essas questões da inconsciência dos processos de mudança. Uma pessoa não sabe ou ela não consegue mudar aquilo que ela não sabe que existe. Então, primeiro, ela tem que tomar consciência daquilo que pode estar atrapalhando ou, se não está atrapalhando, ver se aquilo está adequado e se estiver adequado, deixa quieto. Segundo ponto é o querer mudar, que é o processo de desejo pela mudança. E o terceiro ponto a gente trata do saber como mudar: tem muita gente que deseja, que tem consciência, mas não sabe como.

E uma coisa muito importante nesse processo de mudança é justamente a pessoa ter consistência: não é porque se tomou consciência da dificuldade que a pessoa simplesmente vai desabrochar, que ela vai mudar e tá tudo resolvido. Muitas vezes ela precisa de um processo de consistência naquele pensamento, naquele hábito, naquele processo emocional – tem que estar vigiando até que o aprendizado se torne inconsciente novamente e que a pessoa realmente incorpore aquilo que foi trabalhado ao longo daquele processo de autodesenvolvimento. Como você mesma disse: autodesenvolvimento costuma ser a chave para um bom desenvolvimento das finanças pessoais, das finanças familiares.

E não tem como a gente falar de dinheiro sem falar da parte dos relacionamentos. Principalmente, no contexto atual como você bem colocou, a partir de março de 2020, em que os paradigmas mudaram por conta da pandemia, como que as finanças influenciam os casais e as famílias?

Márcia: eu costumo trabalhar dentro de uma metodologia que ela não é, digamos assim, uma verdade absoluta, mas é um balizador para que a gente possa entender um pouquinho o funcionamento principalmente em relação à questão do relacionamento. Então existem quatro grandes formas de nos relacionarmos com dinheiro: ou a gente tem uma relação de segurança ou de liberdade ou de poder ou de relacionamento com o dinheiro.

Em linhas gerais: vamos imaginar que uma pessoa tem uma relação de liberdade com dinheiro significa que o dinheiro vem para deixar a pessoa feliz, para que ela possa satisfazer todas as suas vontades, não é uma pessoa adepta ao planejamento, pensar no futuro não é muito o lance da pessoa é porque o negócio é no aqui e no agora e eu vou ser feliz aqui agora e o dinheiro vem para isso.

Então imagina uma pessoa que tem uma estrutura com alguns desses tópicos casada, por exemplo, com alguém que tem uma relação de segurança com o dinheiro: que faz planejamento, que tem tudo organizado, que tem tudo anotado, que é extremamente minucioso no controle das finanças. Quando junta essas duas personalidades relacionadas ao dinheiro tão distintas, o conflito é absolutamente inevitável.

Então é muito importante para o casal poder entender esse funcionamento de cada um para tentar encontrar um campo comum disso.

Vou pensar numa outra abordagem: quem tem o uma relação de relacionamento com dinheiro. O que que significa isso: o dinheiro é usado justamente nas relações, então são aquelas pessoas que gostam muito de presentear, como se a linguagem de amor da pessoa fosse através de presentes. Isso é uma outra abordagem, a gente demonstra amor de algumas formas e algumas pessoas demonstram isso através do ato de presentear. Então usa bastante dinheiro com isso: sofre quando não pode dar presentes caros. Essa pessoa vai ter também mais dificuldade de fazer e seguir um planejamento mais rigoroso financeiro. E aí essa pessoa, por exemplo, casada com alguém que tem uma relação de liberdade com dinheiro, eles nunca vão ter dinheiro guardado nenhum e o endividamento vai ser do lado dos dois. O que também, embora desse tem um funcionamento muito parecido, isso não vai evitar os problemas de relacionamento

Então é muito necessário que o casal possa sentar… Quando tu traz “como é que a gente sabe como mudar?” Então para isso também tem alguns métodos que a gente pode usar para pensar numa mudança. Considerando a questão dos casais e quando tem filhos isso acaba ficando ainda mais complexo – porque os filhos vão seguir o exemplo dos pais e não o que os pais falam – eles vão captar esse funcionamento inconsciente dos pais e não uma fala mais superficial, então importante que o casal possa sentar e ter algo pelo menos mais objetivo, que ao menos que as finanças do casal seja respeitada.

Nem todo casal vai conseguir trabalhar com seu dinheiro junto; isso funciona para alguns não funciona para outros. Então quando se tem uma forma de lidar muito diferente com o dinheiro, um perfil muito diferente da relação, é fundamental que se possa ter um campo comum. Como é que é isso? Tá, ok, vamos sentar e vamos fazer o planejamento. Então o que que a gente vai construir juntos enquanto casal, poder ter sonhos juntos? E poder também ter o controle das despesas mensais e definir o que quando e quanto cada um paga de uma forma muito clara. E procurar ou menos dentro desse combinado de casal, procurar fazer com que isso funcione.

E daí depois ter a sua individualidade caso em conjunto a coisa não consiga funcionar. É mais ou menos por aí que a gente trabalha: existem perfis diferentes, existem conflitos de relacionamento a partir desses perfis e poder compreender e encontrar um campo comum de funcionamento me parece que é uma saída bastante adequada para os casais.

Phillip: é aquela coisa: quando se está falando de casal, quando se está falando de um relacionamento mais próximo, quando vão ser definidos objetivos ou vai ser definido um planejamento, por mais que os perfis sejam diferentes, a grande chave está no diálogo e num diálogo no sentido de negociar – ninguém se anular, mas também ninguém se impor. Porque, tem até no seu livro, O Desafio da Independência, um perfil que você não exemplificou que a relação de poder: a pessoa que impõe, a pessoa que quer do jeito e se não for do jeito dela não funciona. Então talvez o caminho do meio seja uma negociação.

E como você bem colocou: a gente não pode deixar de forma algumas as crianças de fora, porque é bem aquela expressão “a palavra convence, o exemplo arrasta”. De uma forma mais penelística “as crenças podem convencer, mas são os valores que vão ensinar”. Então como é que os pais, os tutores podem ensinar as crianças a terem uma relação mais saudável com dinheiro, na prática?

Márcia: na prática é falando sobre dinheiro com criança desde sempre, porque o dinheiro na verdade ele é um meio que nós temos para adquirir coisas. A partir do momento que eu começo a mostrar para uma criança o valor da escolha eu inevitavelmente estou ajudando a criança entender a relação com o dinheiro

Então é uma criança pequena que quer sorvete; então eu vou terça conversa com a criança: “ok, eu posso te dar o sorvete agora, mas o chocolate não vai ganhar porque vai escolher uma das coisas. Então pense bem: qual desses dois gostam mais e tu escolha um”. E aí volta, Phillip, naquilo que tu falava lá anteriormente que a questão fundamental do dizer “não”, do ajudar a criança a lidar com a frustração de não ter algo.

Então na prática é assim que funciona: eu vou negociar com ela sempre mostrando e sempre levando a criança a pensar na consequência da sua escolha. Nós vivemos em um momento em que as pessoas não têm muita responsabilidade pela consequência das suas decisões. “eu quero isso, eu vou fazer isso, eu quero bater no meu colega, vou lá bater e tá tudo certo”. Não, não é assim!

Então a partir do momento que os pais mostram numa relação de consumo, numa relação de mesada, numa relação de dinheiro que há uma escolha que não inevitavelmente tem que haver uma escolha, jamais usando o argumento de que os pais muitas vezes dizem “eu não tenho dinheiro, a gente não pode comprar”… Esse não é o argumento mais eficaz, porque eu só tô dizendo para ele não tem porque a gente não pode. Então eu só tô emitindo para ele uma impotência, ao passo que não é isso. Ele não vai ter porque ninguém tem tudo porque a ilusório ter tudo e porque há uma necessidade de a gente escolher os recursos, sejam financeiros, sejam ambientais eles são finitos e tudo que eu faço eu tenho uma consequência disso

Os pais têm deixado de explorar isso com as crianças. Então a grande questão é que existe no meu site várias dicas também de como trabalhar essa questão mais pragmática, quanto dou, a partir que idade eu dou o dinheiro para criança. Mas isso não é o mais importante: eu conheço crianças que se tornaram adultos que lidam muito bem com o dinheiro e nunca tiveram mesada; outros que tiveram mesadas e são endividados… Então a regra não é essa receita de bolo: o que funciona é justamente esse levar a criança a entender a responsabilidade da sua escolha e o valor da escola. Ela pode escolher: uma coisa sensacional é escolher entre um sorvete e um chocolate, né? “ah eu quero os dois”, sim quer mas é algo que não é possível ter e qual deles vai te deixar mais feliz. Então é um jeito de levar a criança analisar inclusive sobre o seu desejo de fato, e não sobre vontades superficiais porque vontade ela vai ter de tudo o tempo inteiro.

O grande ensinamento dos pais é esse. Dá mais trabalho, com certeza, mas o investimento que os pais estão fazendo é no ativo mais importante que é o tempo. Então eu invisto tempo explicando isso para o meu filho, ele vai criar uma consciência crítica de leitura do que é proposto para ele através dos filmes, dos desenhos, dos jogos, ele desenvolve o pensamento crítico. Ele não vai em um comportamento de manada, ele não vai simplesmente por um efeito de contágio querer porque os outros têm

A questão financeira ela acaba sendo sanada com algo mais profundo, mas muito mais libertador para um filho, né? Que pai não quer um filho com pensamento crítico e livre? Mas isso quem dá são os pais. O que a gente pode dar são dicas muito simplórias diante dessa riqueza que é ajudar um pensamento, a formação de um ser pensante nesse sentido.

Phillip: Márcia, faz tempo que a gente sabe que educação financeira transformadora deve vir da base, mas também de cima, dos adultos: como que a gente deve reeducar um adulto a mudar sua relação com dinheiro?

Márcia: primeiramente ajudando a identificar onde estão os gatilhos de uma autossabotagem financeira. Quando é que essa pessoa se atrapalha: quando tá bem, quando tá cansado, quando tá de dieta, quando…? Qual é o momento? Então o primeiro passo a pessoa tem que identificar: quais são os gatilhos que fazem com que ela acabe fazendo negócios ruins do ponto de vista financeiro: gastando, não fazendo planejamento, não seguindo seu planejamento. E a partir daí buscando algumas ferramentas: acho que conhecimento, quem tá aqui ouvindo o podcast já tá de parabéns porque já busca esse conhecimento, lendo, buscando informação, muitas vezes buscando -se precisar e se possível- buscando uma ajuda mais especializada, seja com educador financeiro, seja em um processo analítico.

Então a gente costuma também trabalhar o que a gente chama de método. Então, por exemplo, a uma metodologia chamada TRM que é treinamento, resultado e manutenção. Eu vou treinar, por exemplo, guardar dinheiro todo mês, eu vou comemorar aquele resultado que todo mês eu consegui guardar um dinheiro, e eu vou me manter, eu vou continuar comunicando mantendo isso, comunicando para mim mesmo, para alguma pessoa que eu tô mais interagindo desse meu planejamento – que eu compartilhar muitas vezes faz com que eu me obrigue a ter que fazer esse resultado.

Então pensando aí na questão de manter uma força de vontade maior. Força de vontade é um músculo nas nossas vidas e que a gente pode desenvolver essa musculatura. Então eu vou identificar qual é meu problema e começar sempre com coisas pequenas também. Então tá: qual é o meu primeiro passo? Meu primeiro passo é anotar todos os gastos. Ok, então eu vou ficar aí anotando os gastos até isso entrar no automático, até isso não ser mais um peso e depois eu vou para o próximo passo. Então é estabelecendo também alguns objetivos, um de cada vez, mantendo-os e depois partindo para o próximo.

Acho que são esses formatos assim que acabam funcionando para os adultos.

Phillip: tem que colocar meta, manter o esforço até que se torne inconsciente e, ao longo do caminho, ir comemorando cada pequena vitória e comemorar obviamente a grande vitória de realmente ter conquistado, ter desenvolvido aquilo que a pessoa realmente se propôs.

Márcia, diante de tudo aquilo que a gente falou: como que as pessoas podem manter uma vida financeira saudável?

Márcia: Olha isso é isso também é muito relativo, Phillip, vai depender do que é saudável para as pessoas. Têm pessoas que conseguiram manter uma vida financeira sem muitos endividamentos ou dentro daquele endividamento que a gente chama de dívida boa, né, a pessoa tá bem, tá feliz; tem pessoas que são mais ambiciosa e querem coisas maiores e quando não conquistam acabam sofrendo… Então é relativo a gente falar sobre isso porque riqueza é outro conceito muito subjetivo também: riqueza é ter quanto de patrimônio e que estilo de vida? Então tem a riqueza objetiva que a conta bancária ou patrimônio e tem a riqueza subjetiva: eu conheço pessoas extremamente ricas do ponto de vista financeiro e que adoeceram e algumas estão até perdendo a vida sem ter sequer aproveitado porque o objetivo era esse acúmulo e o trabalho e não é a linha de chegada e não o trajeto

Então realmente é difícil a gente ter uma categoria que pudesse condensar isso. Mas tentando aqui resumir: uma pessoa que não tem um nível de inadimplência, a pessoa não está inadimplente, consegue ter suas contas pagas e consegue construir algum patrimônio mantendo uma qualidade de vida ao longo da sua vida me parece que esse é o conceito de finanças saudáveis.

Todo o momento de vida da pessoa, à medida que ela consegue também guardar um pouco de dinheiro e aproveitar sua vida, me parece que esse é o equilíbrio. A gente sempre pode melhorar em relação a qualquer coisa nas nossas vidas, mas ter o foco simplesmente de só um ganho financeiro me parece que é uma vida muito pobre. Para quem lembra aí do Pedro de Lara, um ícone que teve na televisão brasileira, não cara muito engraçado, e ele dizia o seguinte: “eu conheço gente tão pobre, mas tão pobre, mas tão pobre que só tem dinheiro”. Então acho que é o recado fica por aí: Finanças equilibradas é não ser um peso para os outros em relação a sua questão financeira e manter aí o mínimo de qualidade de vida, de conforto financeiro, ter uma reserva para imprevisto que a gente viu mais do que nunca necessidade disso

Phillip: Márcia, eu agradeço imensamente a sua participação e com certeza nós vamos trazê-la novamente para tratar de outros pontos muito importantes sobre dinheiro e afeto, pois a gente sabe que tem vários outros assuntos que precisam ser abordados com bastante carinho, com bastante cuidado e eu fico muito agradecido pela sua participação e pelo privilégio de estar te trazendo aqui no podcast do Investidor Inteligente.

E para a gente fechar eu queria que você deixasse uma mensagem final para o ouvinte do podcast que, com certeza, deve estar querendo mais sobre esse assunto, deixando o seu contato nas redes sociais para que as pessoas também possam acompanhar o seu trabalho.

Márcia: Eu que agradeço a sua generosidade, o carinho. É muito importante a gente ver o tempo passando e esse assunto ganhando mais espaço. Eu e mais algumas pessoas lá atrás, há 13, 15 anos atrás, alguns até mais, vindo e falando sobre isso e agora sim tendo um espaço maior. Então super agradeço o espaço de vocês e a forma também como tu aborda. Quero te parabenizar e pela pelo nível de pergunta que tu faz, é algo tu estuda sobre isso.

Me sigam nas redes no Instagram @marcia_tolotti, meu site www.marciatolotti.com.br. A gente tem aí várias novidades para 2021.

E de recado o que que eu acho que é importante: primeiro é a gente encontrar uma riqueza pessoal como esse momento traz para a gente; faz uma revisão: nós podemos revisitar o que é de valor nas nossas vidas, que são as amizades, a família, nossa saúde, poder manter essa saúde (em um próximo momento a gente pode conversar sobre minha vida de corredora e o livro que a gente escreveu a seis mãos que chama Linha de Chegada que também é um projeto social junto disso) e essa persistência, se colocar metas e entender que o importante é o longo do caminho e não só essa chegada final e que vem imprevistos acontecem: a gente não sabe quanto eles custam e nem quando eles vão acontecer, mas a gente sabe que eles vão acontecer.

Então criar esse pensamento adulto, esse amadurecimento financeiro e romper com uma imaturidade financeira com esse pensamento mágico de que tudo vai dar certo e as coisas vão melhorar e eu não preciso fazer nada para isso. Não… e autorresponsabilidade, né? Essa coisa de “o outro tá sempre errado, eu tô sempre certa”… essa situação externa ela acaba fazendo com que nós tenhamos uma benevolência muito grande, uma auto indulgência muito grande, uma licença moral, inclusive, para errar. Penso que tá no momento de nós abrir mão disso: criar uma lógica de prosperidade, uma lógica de cooperação, de colaboração e de auto responsabilidade. Acho que a “receita” é essa daí.

Muito obrigada! Não deixem de me seguir, a gente tem novidades lá e super agradeço e tô pronta para próxima!

O podcast do Investidor Inteligente também pode ser um pouco seu! Acesse a transcrição no blog do Dicas Curtas caso queira deixar algum comentário para esse episódio! E você também pode participar mais fazendo a mesma coisa encontrando a postagem no perfil do Dicas Curtas tanto no Instagram (siga @dicascurtas) quanto na fanpage dO Investidor Inteligente no Facebook. Aproveita para seguir o perfil, curtir a página e as postagens, marcar seus amigos e compartilhar com eles o que você está aprendendo aqui!

E você pode entrar em contato direto comigo através do meu perfil do Instagram: você me encontra nas diferentes redes sociais através do @phillipsouzabr. Ou eu pessoalmente ou alguém da minha equipe vai atender sua demanda, ok?!

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Todos os links estão na transcrição no blog e na descrição dos episódios.

Pense sobre o que tratamos aqui e coloque em ação o que você aprendeu.

Lembre-se de cuidar bem de você, de sua família e de suas finanças!

Que Deus te abençoe!
Aqui é Phillip Souza, o Investidor Inteligente!

Investidor Inteligente do Dicas Curtas

 

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