Ouça agora este podcast! “022 O passo-a-passo para sair das dívidas”

Você já deve saber que o assunto endividamento financeiro pessoal é uma das características mais marcantes da cultura do povo brasileiro. Infelizmente é fruto da herança do consumismo ou de decisões pouco estudadas, seja um investimento errado, seja um planejamento insuficiente e ineficiente ou também da nossa susceptibilidade aos apelos do marketing e da publicidade. Quando as pessoas entram em endividamento pela primeira vez costumam se assustar e também ficar com medo: restrições de crédito, cobranças de todos os lados (do credor, da família, de si mesmo), além da preocupação sabendo que tem um problema a ser resolvido. Mas como solucionar se eu nem sei por onde começar?

Passo-a-passo para solucionar desafios

Existem vários caminhos, várias estratégias que podem ser adotadas para solucionar as dívidas; contudo, em essência podemos definir uma espécie de passo-a-passo para solucionar esse desafio. Vale ressaltar que dependendo do tamanho e da característica do endividamento, dependendo da estrutura de seu padrão de vida, dependendo das suas fontes de receita pode ser mais fácil ou mais difícil resolver a situação. Por isso que tem que ser traçada uma estratégia antes de sair negociando e resolvendo as coisas de qualquer jeito. Se você está endividado, lembre-se que a falta de planejamento, a falta de controle e de uma visão clara já te levaram até essa situação desconfortável. Você não precisa aumentar seus problemas ao tentar resolver as coisas impulsivamente.

O primeiro passo que se fosse respeitado e seguido talvez evitasse toda confusão é gerir, administrar seu dinheiro. É registrar todas suas receitas e despesas, monitorar, analisar e ajustar os excessos e tomar consciência das mudanças necessárias para atacar as dívidas. Se você não conhece o jogo do seu dinheiro você já está em desvantagem na guerra contra as dívidas.

O segundo passo para criar uma estratégia de solução das dívidas? Realizar o que chamo de Diagnóstico das Dívidas, para saber o quanto se deve. O que tem que fazer? Listar detalhada e absolutamente TODAS as suas dívidas, sem exceção, credor por credor. Pega um papel ou coloque as informações em uma planilha com as seguintes colunas:

  • Nome do credor
  • Valor contratado (que é o dinheiro que você tomou emprestado)
  • Data da contratação
  • Taxa efetiva contratada (que é a taxa real, geralmente expressa pela sigla CET [custo efetivo total])
  • Prazo contratado em meses
  • Valor definido para a parcela
  • Quantidade de parcelas quitadas
  • Quantidade de parcelas devidas

A maioria das dívidas costuma ter todas essas informações; algumas não. Feito isso, você vai multiplicar a quantidade de parcelas devidas e o valor da parcela de cada dívida e depois soma-las. Então por exemplo: se eu tenho uma dívida que tem como parcela R$ 100 e faltam pagar 8 parcelas, o valor final é de R$ 800; se tenho outra dívida com parcelas de R$ 250 e faltam pagar 4 parcelas, o valor final é de R$ 1.000. Considerando que são somente essas dívidas meu endividamento total é de R$ 1.800. Vale atentar que esse valor é se você não fizer nada: nenhuma negociação, troca de dívida, etc. Precisamos, então, saber qual é o número que estamos lidando. Muitas pessoas não passam dessa etapa, tentam resolver o problema na raça e acabam sofrendo mais ou até se complicando mais. Não ignore esse passo. Dói ver o número, mas é importante ter consciência do tamanho do problema.

O terceiro passo é listar seus bens e seu patrimônio pessoal. Saber o que você tem é tão importante saber o quanto você deve. De forma similar, você vai colocar:

  • O nome do item (casa, carro, apartamento, coleções, etc);
  • O valor estimado caso fosse vender; e
  • A situação dele (se está quitado ou se ainda está alienado, financiado).

 

O quarto passo é identificar o potencial de risco das dívidas:

  • Quais dívidas, se não forem pagas, podem afetar seu patrimônio pessoal? Se não pagar a dívida você pode perder seu carro, pode perder sua TV, sua geladeira, algum dinheiro que esteja no banco?
  • Quais dívidas podem impactar e prejudicar seu trabalho de forma direta? Se eu sou um vendedor, por exemplo, e dependo do carro, se eu perde-lo eu estou perdido!
  • Quais dívidas são financeiras (empréstimos bancários, por exemplo, que não estão ligadas à um bem)?
  • Quais dívidas podem causar constrangimentos ou risco pessoal? Aqui eu falo dívidas similares a compromissos com agiotas, que podem ser extremamente perigosas. Quais são os riscos (financeiros ou não) que você corre com cada um de seus credores?

 

O quinto passo é filtrar as dívidas. Nesse passo organizamos o potencial de risco (o passo anterior) lidando com duas perguntas:

  • O risco potencial: ou seja, qual é a chance de eu perder o bem e/ou quais os riscos legais ou pessoais são mais importantes?
  • O grau de prejuízo absoluto: quanto de juros, em dinheiro, é pago todos os meses aos credores?

 

O sexto passo é priorizar os esforços. Infelizmente, dependendo do seu grau de endividamento, dependendo da estrutura do seu padrão de vida, conforme já mencionei, existem dívidas que simplesmente não vão ter como ser pagas agora – outras sim. Por isso que é fundamental saber como funciona sua vida financeira a partir da gestão do seu dinheiro, que é o primeiro passo nessa estratégia. Diante disso:

  • Quais dívidas são prioritárias e podem ser encaixadas no seu orçamento sem extrapolá-lo? Uma dívida? Duas dívidas?
  • Se houver foco apenas nessas dívidas selecionadas, quais são as possíveis consequências dessa decisão? (Restrição de crédito, risco legal, risco pessoal?)

 

O sétimo passo é negociar. Ligar, conversar com o credor, expor a situação, a sua boa vontade e negociar as condições de liquidação (melhores taxas, prazos, condições de modo a fechar um acordo humanamente pagável). Até hoje no meu trabalho ajudando as pessoas a organizarem suas finanças, a saírem ou começarem a sair das dívidas eu não conheci ninguém com pele verde e que faça fotossíntese. O que eu quero dizer com isso é o seguinte: ou você fecha um acordo em que seja bom para você e bom para o credor ou não fecha acordo nenhum. Podem gerar as consequências pensadas anteriormente? Podem. Por isso que antes nós definimos o grau de risco, para saber quais decisões podem ser tomadas e quais consequências decorrentes delas.

Como que eu vou saber se a negociação está mais vantajosa? O ideal é ter um pouquinho de habilidade com matemática financeira, para uma negociação mais técnica que envolva argumentação sobre taxas de juros. Mas lembra do saldo devedor final de cada dívida que fizemos no passo 2 (quantidade de parcelas devidas multiplicado pelo valor da parcela)? Se a dívida em negociação tiver VALOR FINAL MENOR que aquele que você ainda deve, já é indício que você vai pagar menos. Então voltando ao exemplo da dívida de 8 parcelas a serem pagas do valor de R$ 100 cada, que dá R$ 800: se em uma negociação o valor total for, por exemplo, R$ 700, a minha dívida diminuiu ou em tempo ou no valor da parcela e consequentemente os juros pagos.

 

O oitavo passo já envolve uma reflexão especial e cuidadosa: avaliar a possibilidade de liquidar bens para solucionar os problemas. Vale uma conversa franca com o cônjuge; não decidir de imediato, mas pensar em possibilidades para solucionar o problema. Esse é um passo muitas vezes delicado e aqui cabe ainda mais prudência. Os planos fracassam por falta de conselho, mas são bem sucedidos quando há muitos conselheiros.

 

O nono passo que muitas pessoa desconsideram é aumentar as receitas. Quais são os trabalhos extras que você pode fazer? Talvez um freelance, dar aula particular, vender algum produto, desenvolver algum negócio online? Como você pode aumentar as suas receitas? Use sua criatividade, planeje e faça.

 

E o décimo e último passo é: mesmo endividado, poupe dinheiro e premie seus esforços. Pode parecer contraditório, mas poupar dinheiro, mesmo que pouquinho, mostra à sua mente inconsciente que existe abundância diante das dificuldades. Mesmo que o montante cresça lentamente, direcione esse dinheiro de poupança para a formação de uma reserva de emergência. E, quando liquidar alguma dívida, se premie com algo que te proporcione prazer e o sabor da vitória. Voltando ao exemplo que dei anteriormente: depois de pagar as 8 parcelas de R$ 100, por exemplo, os próximos R$ 100 (que não tem a ver com a dívida, porque ela já foi liquidada) pode servir para eu me premiar. “Ah mas eu tenho tantos outros compromissos e esses R$ 100 poderiam ser utilizados para saná-los…” sim, pode. Mas a sua vida emocional é tão ou mais importante do que sua financeira. Considere isso.

 

Às vezes a solução das dívidas é simples; às vezes é bastante complexa por existirem muitas variáveis a serem detalhadas e consideradas em uma estratégia. Talvez seja uma situação que se resolva com alguns poucos meses; ou pode ser uma circunstância que leve alguns anos para se dissolver. Uma das coisas mais impactantes é que, geralmente, as pessoas que estão endividadas não têm habilidade em lidar com dinheiro, mal fazem ideia de como funciona o próprio jogo financeiro. E nesses casos é interessante ter o acompanhamento profissional para auxiliar na construção do hábito e na descoberta de como você funciona quando o assunto é dinheiro.

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